Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Uma Verdadeira Prosa

por Eder Ferreira


Imagine intrépido leitor (ou leitora) se, um dia, os gêneros literários se personificassem, e começassem a dialogar entre si. Pois deixe de imaginar e confira o resultado:

SONETO: Sou eu, o melhor entre todos; aquele que versifica o mundo; e mostra aos pobres tolos; como, ao coração, ir bem fundo...

POESIA: Cale-se, Soneto moralista. Não vê que está ultrapassado; Agora sou eu, que graças aos modernos versifico esse mundo injusto e ingrato...

SONETO: Não me fingirei de morto; seguirei firme em caminhar; e, no mais belo horto...

CONTO: Por favor, deixe-me falar, senhor Soneto. Gostaria de lhes contar...

CRÔNICA: Lá vem esse Conto metido! Mas afinal, é conto de que? De réis? Ou seria do vigário?!

POESIA: Sempre assim, a afamada Crônica. Sei que, como o expoente da nova prosa, engrandece-se em dizer suas ironias; mas, cuidado, advirto-lhe; não há prosa que vença a insanidade acometida da Poesia e seus encantos líricos!

ENSAIO: Estava ali, logo ao lado, a dialogar com meu amigo, o Tratado, e acabei por escutar o que conversavam. Tenho uma breve teoria sobre esse debate que tão acaloradamente iniciaram...

CRÔNICA: Breve? Breve é meu salário! Ta certo que o Tratado é pior que você, mas bem que tu não fica pra trás. Quando começa a falar não para mais.

ROMANCE: “Rapidamente, ela viu seu amado adentrar-se pela porta. Não aguentou, e suas lágrimas escorreram pelo seu rosto liso e belo.” E então, gostaram? Estou quase terminando.

CONTO: Meu caro Romance. Sabe que suas histórias são demasiadas extensas. Tem que criar coisas mais simples.

ENSAIO: Pois bem, agora o debate chegou no ponto certo. Posso começar a narrar minhas teorias sobre o tamanho ideal de um texto?

TODOS: NÃO!!!

CONCLUSÃO: Com licença. Posso me meter na conversa de vocês?

POESIA: Quem é tu, cara de tatu! Ahahahah!!! Por que estão me olhando com essa cara?! Nunca leram poesias humorísticas?

CRÔNICA: É, quem é você, cara de fuinha?!

CONCLUSÃO: Meu nome é conclusão.

SONETO: Conclusão? Rima com coração...

ENSAIO: Seus tolos. A conclusão é quem encerra alguns tipos de textos.

ROMANCE: Que tipos de textos? Não me lembro de nenhum texto meu ter sido encerrado por essa tal conclusão.

ENSAIO: Geralmente ela encerra Ensaios, Artigos, Tratados, e outros textos mais técnicos. Não se preocupem. Ela não pode encerrar esse texto.

CONCLUSÃO: É aí que você se engana. “E para encerrarmos esse texto sem nenhuma importância técnica, é importante frisarmos que em nada ele colaborou para o engrandecimento dos principais interessados: os leitores.”

ANEXO: Calma lá! Se esqueceram de mim, não é? Não tenho muito espaço para ceder, mas se alguém quiser dizer alguma coisa?

SONETO: Eu tenho algo a perguntar: O que rima com inércia?

CONTO: Pelo menos esse texto foi classificado como Conto. Aqui pra você Romance!

CRÔNICA: Cara de fuinha!

FIM

Esse conto foi publicado originalmente no livro "Uma Verdadeira Prosa - Contos & Minicontos". Para saber mais clique aqui

terça-feira, 9 de julho de 2013

O opulento


por Eder Ferreira

Jair acaba de sair da lotérica, com o resultado do último sorteio, dado pela atendente. Com ele em mãos, confere seus bilhetes, para ver se algum deles está premiado.
– 32, 47, 06... 06? Eu ganhei, ganhei...
Entra de volta na lotérica, para saber se realmente havia ganhado. Logo sai pulando de alegria. Há anos ele jogava, mas nunca a sorte lhe sorria. Toda semana fazia uma “fezinha”. Chegou a gastar verdadeiras fortunas em jogos de apostas. Mas, agora, ele estava rico. Pouco mais de um milhão. Não precisaria mais trabalhar, nem se preocupar com contas. Sua vida, tão sofrida, agora mudaria. De um simples carpinteiro, passaria para um empresário. É, por que não. Nunca mais precisaria se preocupar com contas, cheques ou empréstimos. É só chegar em casa, dar a notícia para sua esposa, e pensar o que fazer com o dinheiro. “Imagina só quando eu falar pra ela. Do jeito que é, vai cair dura”, pensa ele. Vai andando pela rua, todo feliz, pensando no dinheiro que ganhara, quando encontra o Doutor Evandro, médico que a mais de dez anos atende sua família. Doutor Evandro tem a fama de irônico, e de falar difícil, usando constantemente palavras desconhecidas e exóticas. Sempre com seu terno escuro, faça calor ou frio, o velho médico nunca foi um antro de simpatia. Com um ar de seriedade o médico fala:
– Como vai Jair. E a pressão, voltou a subir? E porque esse sorriso tão largo?
– O senhor não vai acreditar. Acabo de saber que ganhei mais de um milhão na loteria – diz Jair ao médico.
– Parabéns, por ser o mais novo opulento da cidade. Mas, me desculpe, preciso ir.
– Até mais, Doutor.
Doutor Evandro vai embora, e Jair prossegue andando. Mas logo começa a pensar sobre o que o velho médico havia lhe dito. “Opulento? Mas o que seria isso? Ai meu Deus, ele é médico, e não estava com uma cara muito boa. E aquele parabéns. Isso só pode ser uma doença. Ele não ia brincar com uma coisa dessas. E justo agora que fiquei rico. Vou agora mesmo ao consultório dele, para saber mais sobre essa doença. Não, não vou. Se ele me disse assim, no meio da rua, e com aquela cara de poucos amigos, é por que sabe da gravidade da doença, e com certeza vai dizer que já está avançada. Não vou aguentar uma noticia dessa, não agora. Vou até o Doutor Marcelo. Ele é bom médico, o consultório fica aqui perto e, com certeza, não vai me desanimar.”
E lá vai Jair, até o consultório do Doutor Marcelo. Ao entrar no consultório vai direto até a atendente.
– Olá moça. Quero marcar uma consulta com o Doutor Marcelo.
– O senhor vai ter que aguardar um pouco. Ele está no meio de uma consulta. O senhor pode se sentar e aguardar alguns minutos – disse ela, muito atenciosamente.
Jair se senta para esperar. O tempo vai passando. Aqueles minutos parecem que nunca vão terminar, até que finalmente ele é chamado para a sala do médico. Ao entrar na sala do médico, Jair começa a tremer e a suar.
– Em que posso lhe ser útil – diz o médico.
– Doutor. Quero fazer uns exames.
– Tudo bem, mas por que, esta se sentindo mal? – Pergunta-lhe o médico.
– Não... não. É só rotina.
Entraram, então, em uma outra sala, e o médico começou o exame.– Diga A.
– AAAAAAHHH!
– O.K.. Você tem sentido alguma dor no peito, cansaço, ou outro mal estar? – indaga o médico.
– Não – responde Jair
– Vou medir sua pressão – Diz o médico, colocando o aparelho de medição no braço esquerdo de Jair. Depois de alguns instantes – Bem, sua pressão está um pouco elevada. Você é hipertenso?
– Sim, Doutor, de vez em quando preciso tomar remédio para pressão – diz o angustiado Jair.
– Vamos ver como está seu coração – diz o médico, com o estetoscópio em mãos – seus batimentos cardíacos estão um pouco elevados, mas creio que seja por seu nervosismo – e continuou – me diz uma coisa, Jair, seus pais tem ou tiveram algum tipo de doença crônica?
– O que seria isso Doutor – diz Jair, ainda mais nervoso.
– Doença crônica seria uma doença incurável, que só pode ser controlada, como alergia, por exemplo – explica Doutor Marcelo.
– Que eu saiba não – responde Jair.
E assim o exame seguiu. Ao término, os dois voltam para a outra sala, e o médico lhe diz:
– Bem, Jair, você não tem nada.
– Como assim, Doutor, não tenho nada? – Indaga Jair.
– Não, seus exames não constataram nada, a não ser a pressão alta, que você mesmo mencionou. É claro que alguns exames clínicos devem ser feitos.
– Tenho certeza que esses tais exames clínicos vão dizer alguma coisa – diz Jair, com um ar de desolação.
O médico, já sem saber o que dizer a Jair dá um longo suspiro, na tentativa de entender o que aquele homem tem para estar tão afobado, em busca de uma doença que, aparentemente, não existe. Sem ter muita idéia do que estaria acontecendo, Doutor Marcelo resolve indagar Jair do porque de tanta cisma.
– Mas por que esse pessimismo todo, o que aconteceu para você ficar assim?
– Agora a pouco, quando saia da lotérica, encontrei a Doutor Evandro. Ele me disse que estou opulento. Fale a verdade, Doutor Marcelo, isso é grave?
– Você disse lotérica? Então foi você quem ganhou o prêmio da loteria? – perguntou o médico.
– Fui eu sim.
– Meus parabéns! Mas, me diga uma coisa: Você sabe o que quer dizer opulento?
– Não é uma doença? – responde Jair.
– Mas é claro que não. Opulento é rico. Vem de opulência, que quer dizer riqueza.
– O senhor está me enrolando, não é. Deve ser mesmo alguma coisa grave. Não minta pra mim, eu sei que estou morrendo – disse o desesperado Jair.
– Vou lhe provar que estou falando a verdade.
Doutor Marcelo abre uma gaveta de sua mesa, pega um dicionário, e mostra a Jair o significado da palavra opulência.

Opulência: Grande riqueza; abundância; fausto; luxo; ver opulento.

– Está vendo como não estou lhe enganando? – diz-lhe o médico.
– Então eu estou bem? Que bom, agora vou poder gastar meu dinheiro sossegado. Dinheiro?! Por causa dessa desconfiança até havia me esquecido que estou rico, muito rico, riquíssim...
De repente, Jair põe a mão no peito, solta um gemido, e cai. Rapidamente, Doutor Marcelo chama sua ajudante e vai socorrê-lo. Depois de alguns instantes:
– E então Doutor? – pergunta a ajudante.
– Ele morreu!
– Mas, do que ele morreu Doutor – pergunta novamente a ajudante.
Doutor Marcelo olha para ela, e diz:
– De opulência!

Conto originalmente publicado no livro “Uma Verdadeira Prosa – Contos & Minicontos”, de 2010, pela Editora CBJE. Para saber mais e adquirir seu exemplar clique aqui

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Livro do Conde


por Eder Ferreira

Toda noite é a mesma coisa, e não se pode negar que aquilo já está se tornando insuportável. As visões são, a cada madrugada, mais apavorantes, e o medo ronda cada canto daquela casa velha. Talvez esteja na hora de um padre ou pastor fazer uma visita, mas, se depender de Tibério, a aparição poderá continuar em sua peregrinação noturna. Anti-religioso, nunca dará o braço a torcer para qualquer sacerdote que tentar dizer suas orações em sua residência.
Porém, suas noites já estão se tornando tortuosas. Quando são apenas barulhos, dá para aguentar, mas, quando vê aquela visão fantasmagórica, Tibério pensa que não suportará. A única coisa que o faz ficar naquela casa assombrada é um livro que ele encontrou no sótão, logo que se mudou. Com sua capa preta e cheio de buracos de traças, o velho livro trata de uma maldição que se abatera na casa há muitos anos atrás.  Ali diz que um certo Conde de Fortebello apaixonou-se por uma linda donzela. O único problema era que a moça queria ser freira. O Conde insistiu muito, até que o pai da moça aceitou seu pedido, sem a aprovação dela. Os dois se casaram, e se mudaram para essa casa, recém comprada pelo Conde. Logo na primeira noite de núpcias, o Conde se viu com um problema. Sua esposa se recusava a cumprir suas obrigações matrimoniais, preferindo ficar ajoelhada, rezando, até que ele adormecesse. Os anos foram passando e, para registrar toda a sua tristeza com o casamento, o Conde resolveu escrever em um livro sua história. E assim surgiu esta obra macabra, que Tibério encontrou. Porém, a parte mais triste diz que, um dia, a mulher adoeceu. O Conde fez de tudo para que sua esposa não morresse. E, passado um tempo, aos pés de um altar improvisado, fez uma promessa. Se sua esposa vivesse, ele nunca mais a importunaria, deixando-a livre do tormento de toda noite tentar tomá-la como sua mulher. Ela sobreviveu, mas, muitos anos depois, ao chegar em casa embriagado, e já cansado de seus amigos se gabarem das esposas prestativas que tinham, o Conde se esqueceu da promessa, e tomou sua mulher, em seu direito de marido. Na ânsia de se livrar daquele homem endemoniado, a mulher acabou por acertá-lo com um vaso e, ao cair, o Conde bateu sua cabeça na quina da escrivaninha e morreu. Depois do velório, a viúva nunca mais foi vista.
      Talvez pareça estranho que Tibério saiba dessa parte final da história, se era o Conde quem escrevia o livro. Mas, para o espanto de qualquer um que venha a ler essa obra macabra está lá, tudo relatado, e com a letra do Conde, facilmente verificada. Na última página, há ainda uma nota, onde diz que quaisquer moradores da casa serão assombrados pelo fantasma do Conde de Fortebello, mas que, a única coisa que ele quer é uma mulher para desposar. Tanto é que, antes de Tibério ir morar nessa casa, uma mulher saiu dali diretamente para o hospício. E essa garantia é a única coisa que faz o corajoso Tibério continuar nessa casa maldita. O fantasma aparece, faz barulho, grita durante a noite. Tibério finge que nada está acontecendo. Ou melhor, fingia. Isso começou a lhe incomodar a algum tempo atrás. Ele já pensou em queimar o livro, na esperança de, talvez, acabar com a maldição, mas só não o fez com medo de que, zangado pela queima do diário, o fantasma lhe faça algum mal. Mas, na verdade, sua esperança é uma bela moça loira, que acaba de se mudar do outro lado da rua. No livro, há uma fotografia da mulher do Conde, e a moça loira lembra, de certo modo, a viúva daquele fantasma insuportável.

Conto originalmente publicado no livro “Uma Verdadeira Prosa – Contos & Minicontos”, de 2010, pela Editora CBJE. Para saber mais e adquirir seu exemplar clique aqui

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O príncipe violinista

por Eder Ferreira

     Das melodias que ouvira, nenhuma tinha tanta paixão e melancolia quanto aquela. Talvez até já tivesse escutado algo tão belo, mas não conseguia se lembrar de algum momento de tanta beleza. O som do violino parecia que vinha do céu, preenchendo o ar e fazendo com que qualquer um que passasse ao entardecer, pela Rua da Alvorada, ficasse extasiado de tanta doçura e tristeza misturadas. A música vinha de uma casa, já velha, sem muito brilho, quase que por desabar. Flora se encantava sempre que voltava da escola. Chegava a parar por alguns minutos, só para poder escutar aquela música divina. Indagava-se sobre quem poderia tocar tão maravilhosamente um violino, instrumento que ela tentara aprender, mas sem muito sucesso. A vergonha não lhe permitia bater palmas e perguntar quem era o instrumentista que a encantava todo fim de tarde. É claro que, em sua cabecinha juvenil, de menina com seus quatorze anos, montava a idéia de o músico ser um rapaz com seus vinte e poucos anos, lindo de morrer e que, sem muitos recursos financeiros para fazer aulas de violino, aprendera a tocar sozinho, e ficava ali, todos os dias, no mesmo horário, ensaiando. Pensara até em um nome para ele: Marcos. Alto, olhos verdes, olhar tímido. Um príncipe, não só em beleza como também em talento. Numa tarde, dessas meio chuvosas, quando veio a estiagem de alguns minutos, quase suficiente para Flora ir embora, pois esquecera de levar o guarda-chuva, passava ela pela Rua da Alvorada quando viu um senhor, de idade avançada, saindo pelo portão enferrujado daquela casa velha, onde morava seu violinista dos sonhos. Eufórica, pensou logo em se tratar do pai ou avô do rapaz, o tal Marcos, que ela nomeara. Tomou coragem e foi até lá, perguntar ao velho sobre quem tocava aquelas músicas tão belamente. O velho lhe disse que era ele mesmo quem tocava o violino. O mundo de Flora desabou naquele instante. Não havia Marcos algum, e seu príncipe violinista não passava de um senhor quase careca, de voz rouca e sem charme algum. Meio sem querer ela deixou escapar um “Marcos”, que o velho logo escutou. Perguntou à moça o que dissera, e ela, com olhar de curiosidade, repetiu o nome. O velho disse se tratar do nome de seu neto, que morrera a pouco mais de um ano, em um acidente de carro, quando ia para um festival de violino. O velho despediu-se então da jovem, e seguiu pela calçada, até virar a esquina. Flora ficou lá, parada, no meio da calçada, quando recomeçou a chover finamente. “Então o Marcos existiu”, pensou ela, com um leve sorriso no rosto. Vagarosamente começou a andar em direção à sua casa. A chuva logo engrossou, mas ela não acelerou o passo. Foi lentamente embora, relembrando uma das músicas que sempre ouvira o velho tocar nos fins de tarde. O tom melancólico das canções que ouvia agora fazia sentido. Quem sabe aquele velho não tocava as músicas tristes pensando no neto Marcos, que havia morrido. Flora começou a chorar e, misturada às suas lágrimas, a chuva escorria pelo seu rosto. A música não saia de sua cabeça, e nem a lembrança de seu príncipe violinista, que ela só conhecera por intermédio do som de um violino, tocado por um velho músico desconhecido.


--------------------------------

Conto publicado originalmente no livro "Uma Verdadeira Prosa - Contos & Minicontos", do escritor Eder Ferreira (para adquirir o livro clique aqui)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O dia da caça

por Eder Ferreira


     Já estava quase na hora, e aquele maldito binóculo ainda não havia aparecido. Já tinha procurado por quase todo o apartamento, e nada. Parecia que pernas tinham surgido, e com elas havia escapulido pelos corredores do prédio. Mais uma vez, Carlos foi procurá-lo em seu quarto. A cada remexida em seu guarda roupa, dava uma espiada no relógio. Ela nunca se atrasava. Sempre na mesma hora, aquela deusa despia-se quase totalmente, e ficava próxima a sua janela, com as cortinas escancaradas. Não seria naquele dia que Carlos perderia o show. Mas, sem o binóculo, ficaria muito difícil. O desespero já estava chegando a limites insuportáveis. Era um vício, uma tara sem igual. Ao passar pela sala, viu ao longe quando as cortinas do quarto dela se abriram. “Maldito binóculo!”, gritava ele. Até que se lembrou que havia passado metade da noite anterior na internet. “O quarto do computador, ainda não olhei lá!”, disse ele, em voz alta. Correu para o quarto. Ao chegar, fez uma varredura com os olhos bem arregalados, mas nada. Enfim, olhou debaixo da cadeira, e lá estava o maldito. Bem na hora. Pegou o binóculo, correu para a janela da sala, fechou as cortinas, ajoelhou-se, enfiou o binóculo numa frestinha, mirou sua visão para a janela da deusa, e a viu, do jeito que imaginava. Há dias a esperava trajando uma lingerie vermelha. Seu desejo foi atendido. A calcinha de rendinha combinava com o sutiã meia taça. Um espetáculo. Além de ter um belíssimo rosto que lhe perturbava o sono há semanas, seu corpo era de uma perfeição inimaginável. Por vezes, achava que ela estava olhando em direção à sua janela. Até poderia, só não conseguiria vê-lo, pois a distância entre os dois prédios era grande o bastante para impedir uma observação minuciosa a olho nu. Quando seu êxtase parecia que lhe levaria a um enfarto, sua deusa resolveu fechar as cortinas. Lamentou-se com uma série de palavrões. Hoje não era seu dia. Havia quase morrido de aflição por não encontrar o binóculo e, para completar, sua deusa tinha resolvido encurtar seu espetáculo diário. Ao perceber que a luz do quarto havia se apagado levantou-se, abriu as cortinas e jogou o binóculo no sofá. A mescla de euforia, por mais uma vez poder contemplar sua deusa, com a raiva pelos acontecimentos indesejados lhe deu um calor descomunal. Arrancou a camisa, e ficou caminhando de um lado para o outro, ao lado da janela. Vez ou outra olhava para onde sua deusa deveria estar. Seus pensamentos já tão desorientados só conseguiam planejar uma possível ida até o apartamento daquela mulher que tanto tirava seu sono. Não seria difícil. Os prédios, apesar de afastados um do outro, eram gêmeos. Ambos os apartamentos ficavam no oitavo andar. Acharia com muita facilidade. “Mas, o que dizer a ela?”, perguntava-se. “Por favor, poderia me arrumar um pouco de açúcar? Não, não! Por que eu iria até lá pra pedir açúcar? Como sou estúpido!”. Sua caminhada tortuosa ao lado da janela já começava a lhe cansar. A fome foi lhe apertando. Resolveu que estava na hora de relaxar. Foi até a cozinha, preparar algo para comer. Um lanche cairia bem. Depois de algum tempo, um belo sanduíche o aguardava em cima da mesa. Quando ia para dar uma bocada no sanduba sua campainha tocou. Sob uma chuva de palavrões, dirigiu-se até a porta. Ao abrí-la, tamanho foi seu susto em ver quem estava ali. Era sua deusa. Com uma saia jeans apertadinha e uma blusinha preta idem, de onde se podia ver a alça do sutiã vermelho que usava enquanto ele a espiava. De queixo caído, sentiu sua mandíbula desabar no chão quando, com uma voz doce e ao mesmo tempo provocante, sua deusa lhe perguntou: “Por favor, poderia me arrumar um pouco de açúcar?”

--------------------------------

Conto publicado originalmente no livro "Uma Verdadeira Prosa - Contos & Minicontos", do escritor Eder Ferreira (para adquirir o livro clique aqui), e finalista do "Prêmio Cidade de Porto Seguro de Contos 2009", tendo sido publicado, também, na antologia "Festa Surpresa - Vol. II".

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Delírios de uma mente monstruosa - Tributo a Mary Shelley


por Eder Ferreira

As lembranças de seu finado marido povoam sua cabeça todos os dias, a todo momento, mas, durante a noite, se tornam mais recorrentes. São tantas as emoções a fluir que fica até difícil ter alguma inspiração. Sobre a mesa, páginas e mais páginas de uma nova estória que vai nascendo. Mas ela sabe que nenhuma conseguira abater sua mais perfeita criação, seu monstro, seu filho mais aterrorizante e fascinante. Mary Shelley sente dentro de sua alma que, por traz de toda aquela monstruosidade, há algo superior, muito além da roupagem fictícia e macabra. Os pensamentos vão de encontro com os devaneios quando, de repente, ao olhar para fora, através da janela entreaberta, ela vê uma imagem que gelaria o mais valente coração, mas não o dela. É ele, Frankenstein, ou pelo menos sua silhueta, demarcada na noite pela luz da lua. Apesar de saber que pode se tratar apenas de um tronco de arvore retorcido ela se pergunta: seria aquilo a insanidade da velhice chegando, ou seria a sua mais perfeita obra, que fugira de sua imaginação para lhe dar um último adeus e um obrigado? A única coisa que Mary faz é sorrir. E, mais uma vez, ela enxerga seu passado, vislumbrando a mais perfeita de todas as obras: a sua vida.


Sobre Mary Shelley

Nascida no ano de 1797, filha de pai jornalista e mãe feminista, Mary Shelley teve uma educação pouco comum para uma mulher de sua época. Aos dezesseis anos conheceu Percy Bysshe Shelley, que era casado. Iniciaram um romance, que a afastaria do pai. Após a morte da esposa de Percy, eles se casam. Seis anos após o casamento, Percy morre afogado. Seu mais importante livro foi Frankenstein, no qual criticou a responsabilidade da ciência. Escreveu outros romances, mas nenhum de grande destaque. Morreu em 1851, aos cinqüenta e quatro anos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Efeito colateral

por Eder Ferreira

Parecia que aquela noite seria igual a outras, mas, logo que anoiteceu, Dona Gena percebeu que havia algo de diferente. A solidão, que tanto lhe infringia, se mostrava mais forte do que nunca. Aquele sentimento de culpa parecia mais insuportável ainda. As lembranças dos momentos ruins lhe vinham com mais freqüência. Mas, de tudo, o pior era a dor nos olhos, os bocejos irregulares e recorrentes, a sonolência incômoda, e todos os sintomas de uma noite as claras. Uma não. Já era a terceira noite consecutiva. Desde que seu filho mais velho faleceu, Dona Gena sofre de uma insônia Crônica. Calmantes são a única solução para sua falta de sono, apesar de lhe causarem fortes náuseas. É claro que muitos fatos fizeram com que seus nervos ficassem abalados. A traição do marido, com a respectiva separação. Vinte e oito anos de casamento jogados fora, a não ser pelos filhos, é claro. E, por falar em filhos. Não só a morte de seu primogênito fazia-lhe mal, como também o abandono dos outros três. Mãe carinhosa, atenciosa. Não lhe entrava na cabeça que seus filhos não se importavam com ela. Vinham, sim, de vez em quando, em algumas ocasiões especiais, mas, como toda mãe, não lhe era o bastante.
Nem mesmo a herança de seu falecido pai, fazendeiro importante e bem sucedido, conseguia fazer-lhe esquecer de todo o sofrimento por que passara em sua vida. E, não bastasse isso, ainda tinha a insônia, junto com as malditas náuseas. efeito colateral. A três noites, Dona Gena não consegue dormir. Fica na cama, rolando de um lado para o outro. Os pensamento se confundem. Surgem em forma de imagens desconectas, sem sentido. Os olhos pesam. O corpo, cansado, se entrega, mas, o sono não vem. Isso já dura seis anos, desde que Alberto, seu filho, morreu. Dois anos depois, a separação. E já se vão quatro meses sem ver Márcia, Carlos e Michele, seus filhos. Todos casados, com seus compromissos, mais sem tempo para ver a mãe. Mesmo vivendo sozinha, Dona Gena consegue se virar bem. Não lhe faz falta empregada ou cozinheira. Tudo o que se deve saber em uma casa, ela sabe. Só não é capaz de vencer a solidão. E, se as outras noites lhe eram um tormento, graças às náuseas causadas pelos remédios para dormir, essa noite é, com certeza, a pior. A angústia só aumenta, enquanto ela olha para o relógio. As horas vão passando, e o sono não vem. Já cansada de tantas Náuseas, a três dias não toma seus remédios, na tentativa de conseguir dormir sem ajuda química. Não sabe o que é pior. As náuseas ou a insônia.
Setenta e cinco anos são bastante tempo mas, várias vezes, nesses seis anos, ela pensara na morte como algo injusto. Por mais que os anos sejam muitos, não seria nada honesto que ela morresse sem conseguir deixar de se culpar pela morte de Alberto. Não que ela tenha culpa direta por seu falecimento, mas pelas vezes em que discutiram, e disseram, um ao outro, coisas que não tiveram tempo para apagar. Ofensas, por mais que fossem da boca para fora, fizeram a relação entre mãe e filho ficar insuportável. E, é isso que ela está martelando em sua cabeça nesse instante. Sentadas, em sua cadeira almofadada, observando o velho relógio na parede, suas emoções vêm cada vez mais a tona. Enquanto fica a pensar no passado, e em tudo o que lhe vem de forma espontânea, sua cabeça cai num rápido movimento, que logo a faz despertar. "Sono?", pergunta ela a si mesma. Não tomava os medicamentos contra insônia a três dias, não poderia estar com sono. Mas, a cada segundo marcado no relógio, ela sente esse sono aumentar. Sua vista, já embaçada, vai se fechando, quando, de repente, tudo se apaga. Sua cabeça tomba sobre o ombro esquerdo. Ela finalmente dormira, só que, desta vez, para sempre. Em suas face, um leve sorriso se mostrara. Talvez, um sorridente ao acaso, sem explicação. Ou, talvez, seja porque, em seis anos, ela não acordaria com aquelas terríveis náuseas que tanto lhe incomodavam.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

À beira do abismo

por Eder Ferreira

Era nítida minha vontade de saltar no precipício. Talvez não mais nítida porque não havia ninguém além de mim à borda da grande fenda geológica. Estava frio, um pavor me consumia. Meus poros todos abertos. Podia ser só frio, mas acho que era medo. Cada vez que encarava os intermináveis metros de queda livre, me lembrava de Nietsche. Será que o abismo também me fitava, ou seria um mero delírio dum velho filosofo que não sabia quem era Deus? Como se eu soubesse. Também me lembrava das aulas de física, com aquela fórmula que não vem ao caso sobre corpos que desabam sob a força da gravidade. Ao contemplar a longínqua descida, uma vertigem irremediável pressionava meu crânio. Uma tontura, um sentimento de que o chão se abriria, e eu cairia naquele buraco enorme. Pensava: e se eu pudesse voar? Com certeza me jogaria sem medo, só para saber o que sente um suicida. Mas, eu não sabia voar, e não viveria para relembrar meus sentimentos sobre a queda. Então apenas imaginava como seria se eu me jogasse dali. A sensação de liberdade, com o vento batendo sobre meu rosto, meus cabelos despenteados, o frio ainda maior pela sensação térmica de estar numa ventania gélida, a emoção de ver as encostas passando rapidamente, e aquela tal sensação de ver a vida toda passar em poucos segundos. Isso sim, seria maravilhoso. Será que me lembraria de tudo, até de quando estava no ventre de minha mãe? Ou apenas me lembraria de fatos recentes e impactantes? O esforço para imaginar tudo isso era grande já que não tinha coragem de fechar os olhos. E se alguém me empurrasse dali? Sim, eu sentia uma vontade de pular, mas não passava de vontade. O pular de fato era outra história. Continuava ali parado, olhando para o vazio, sentindo aquele arrepio na nuca, de quem sabe que a morte está mais próxima do que nunca. Quando me disseram que iríamos para um cânion quase não acreditei. Essa viagem já estava programada desde o ano passado. O diretor havia prometido, mas disse que não tínhamos verba suficiente para levar uma classe toda. Mas este ano deu certo, minha classe veio. E lá estava eu, à beira do precipício, numa mescla de euforia e temor. O vento parecia que me cortaria ao meio. Foi quando ouvi vozes. Eram os alunos, vindo correndo, na direção onde eu estava. Ao chegarem à beirada, todos começaram a olhar para baixo, quando alguém gritou: “Lá está ele, ele caiu mesmo!”. Olhei pra baixo e também vi, havia um corpo sim, na beira do rio. Não era muito nítido, mas dava pra ver que era um corpo. Logo alguns começaram a chorar. O professor chegou, e ao ver o corpo lá embaixo tentou ligar de seu celular, possivelmente para a policia, mas estava sem sinal. Saiu correndo, talvez em direção ao ônibus. Entre choros e gritos de desespero escutei meu nome: “Gabriel!”. Respondi: “Estou aqui”, mas não tive resposta. O Afonso, um dos alunos que estava na excursão se aproximou de mim. Perguntei a ele: “Você sabe quem caiu lá embaixo?”. Mas ele não me respondeu. Na verdade, nem estranhei, sempre fui ignorado por todo mundo. Tentei perguntar para outros alunos quem havia caído, mas ninguém me deu bola. Até entendo, estavam todos nervosos. Algum aluno havia caído no cânion. Talvez tenha se jogado, não sei. Que estivessem nervosos, agitados e preocupados, tudo bem. E até entendo que nunca fui muito popular, mas não precisavam ter ido embora e me deixado para traz. Será que não perceberam que eu ainda estava olhando o precipício? Será que não notaram que eu não estava no ônibus? Nem pra me chamarem. Eles tão fudidos. Quando eu conseguir voltar pra cidade vou fazer uma reclamação com o diretor. Caramba! Minha mãe vai ficar preocupada. Que nada, vai é ficar uma fera. Já está escurecendo, estou arrepiado. Só não sei se é de frio ou se é por causa de uma cruz improvisada que deixaram na beirada do precipício. Morro de medo dessas cruzes.

Conto originalmente publicado no livro "Uma Verdadeira Prosa - Contos e Minicontos"