quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Uma Verdadeira Prosa
terça-feira, 9 de julho de 2013
O opulento
por Eder Ferreira
quarta-feira, 19 de junho de 2013
O Livro do Conde
por Eder Ferreira
Talvez pareça estranho que Tibério saiba dessa parte final da história, se era o Conde quem escrevia o livro. Mas, para o espanto de qualquer um que venha a ler essa obra macabra está lá, tudo relatado, e com a letra do Conde, facilmente verificada. Na última página, há ainda uma nota, onde diz que quaisquer moradores da casa serão assombrados pelo fantasma do Conde de Fortebello, mas que, a única coisa que ele quer é uma mulher para desposar. Tanto é que, antes de Tibério ir morar nessa casa, uma mulher saiu dali diretamente para o hospício. E essa garantia é a única coisa que faz o corajoso Tibério continuar nessa casa maldita. O fantasma aparece, faz barulho, grita durante a noite. Tibério finge que nada está acontecendo. Ou melhor, fingia. Isso começou a lhe incomodar a algum tempo atrás. Ele já pensou em queimar o livro, na esperança de, talvez, acabar com a maldição, mas só não o fez com medo de que, zangado pela queima do diário, o fantasma lhe faça algum mal. Mas, na verdade, sua esperança é uma bela moça loira, que acaba de se mudar do outro lado da rua. No livro, há uma fotografia da mulher do Conde, e a moça loira lembra, de certo modo, a viúva daquele fantasma insuportável.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
O príncipe violinista
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
O dia da caça
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Delírios de uma mente monstruosa - Tributo a Mary Shelley
por Eder Ferreira
As lembranças de seu finado marido povoam sua cabeça todos os dias, a todo momento, mas, durante a noite, se tornam mais recorrentes. São tantas as emoções a fluir que fica até difícil ter alguma inspiração. Sobre a mesa, páginas e mais páginas de uma nova estória que vai nascendo. Mas ela sabe que nenhuma conseguira abater sua mais perfeita criação, seu monstro, seu filho mais aterrorizante e fascinante. Mary Shelley sente dentro de sua alma que, por traz de toda aquela monstruosidade, há algo superior, muito além da roupagem fictícia e macabra. Os pensamentos vão de encontro com os devaneios quando, de repente, ao olhar para fora, através da janela entreaberta, ela vê uma imagem que gelaria o mais valente coração, mas não o dela. É ele, Frankenstein, ou pelo menos sua silhueta, demarcada na noite pela luz da lua. Apesar de saber que pode se tratar apenas de um tronco de arvore retorcido ela se pergunta: seria aquilo a insanidade da velhice chegando, ou seria a sua mais perfeita obra, que fugira de sua imaginação para lhe dar um último adeus e um obrigado? A única coisa que Mary faz é sorrir. E, mais uma vez, ela enxerga seu passado, vislumbrando a mais perfeita de todas as obras: a sua vida.
Sobre Mary Shelley
Nascida no ano de 1797, filha de pai jornalista e mãe feminista, Mary Shelley teve uma educação pouco comum para uma mulher de sua época. Aos dezesseis anos conheceu Percy Bysshe Shelley, que era casado. Iniciaram um romance, que a afastaria do pai. Após a morte da esposa de Percy, eles se casam. Seis anos após o casamento, Percy morre afogado. Seu mais importante livro foi Frankenstein, no qual criticou a responsabilidade da ciência. Escreveu outros romances, mas nenhum de grande destaque. Morreu em 1851, aos cinqüenta e quatro anos.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Efeito colateral
Parecia que aquela noite seria igual a outras, mas, logo que anoiteceu, Dona Gena percebeu que havia algo de diferente. A solidão, que tanto lhe infringia, se mostrava mais forte do que nunca. Aquele sentimento de culpa parecia mais insuportável ainda. As lembranças dos momentos ruins lhe vinham com mais freqüência. Mas, de tudo, o pior era a dor nos olhos, os bocejos irregulares e recorrentes, a sonolência incômoda, e todos os sintomas de uma noite as claras. Uma não. Já era a terceira noite consecutiva. Desde que seu filho mais velho faleceu, Dona Gena sofre de uma insônia Crônica. Calmantes são a única solução para sua falta de sono, apesar de lhe causarem fortes náuseas. É claro que muitos fatos fizeram com que seus nervos ficassem abalados. A traição do marido, com a respectiva separação. Vinte e oito anos de casamento jogados fora, a não ser pelos filhos, é claro. E, por falar em filhos. Não só a morte de seu primogênito fazia-lhe mal, como também o abandono dos outros três. Mãe carinhosa, atenciosa. Não lhe entrava na cabeça que seus filhos não se importavam com ela. Vinham, sim, de vez em quando, em algumas ocasiões especiais, mas, como toda mãe, não lhe era o bastante.
Nem mesmo a herança de seu falecido pai, fazendeiro importante e bem sucedido, conseguia fazer-lhe esquecer de todo o sofrimento por que passara em sua vida. E, não bastasse isso, ainda tinha a insônia, junto com as malditas náuseas. efeito colateral. A três noites, Dona Gena não consegue dormir. Fica na cama, rolando de um lado para o outro. Os pensamento se confundem. Surgem em forma de imagens desconectas, sem sentido. Os olhos pesam. O corpo, cansado, se entrega, mas, o sono não vem. Isso já dura seis anos, desde que Alberto, seu filho, morreu. Dois anos depois, a separação. E já se vão quatro meses sem ver Márcia, Carlos e Michele, seus filhos. Todos casados, com seus compromissos, mais sem tempo para ver a mãe. Mesmo vivendo sozinha, Dona Gena consegue se virar bem. Não lhe faz falta empregada ou cozinheira. Tudo o que se deve saber em uma casa, ela sabe. Só não é capaz de vencer a solidão. E, se as outras noites lhe eram um tormento, graças às náuseas causadas pelos remédios para dormir, essa noite é, com certeza, a pior. A angústia só aumenta, enquanto ela olha para o relógio. As horas vão passando, e o sono não vem. Já cansada de tantas Náuseas, a três dias não toma seus remédios, na tentativa de conseguir dormir sem ajuda química. Não sabe o que é pior. As náuseas ou a insônia.
Setenta e cinco anos são bastante tempo mas, várias vezes, nesses seis anos, ela pensara na morte como algo injusto. Por mais que os anos sejam muitos, não seria nada honesto que ela morresse sem conseguir deixar de se culpar pela morte de Alberto. Não que ela tenha culpa direta por seu falecimento, mas pelas vezes em que discutiram, e disseram, um ao outro, coisas que não tiveram tempo para apagar. Ofensas, por mais que fossem da boca para fora, fizeram a relação entre mãe e filho ficar insuportável. E, é isso que ela está martelando em sua cabeça nesse instante. Sentadas, em sua cadeira almofadada, observando o velho relógio na parede, suas emoções vêm cada vez mais a tona. Enquanto fica a pensar no passado, e em tudo o que lhe vem de forma espontânea, sua cabeça cai num rápido movimento, que logo a faz despertar. "Sono?", pergunta ela a si mesma. Não tomava os medicamentos contra insônia a três dias, não poderia estar com sono. Mas, a cada segundo marcado no relógio, ela sente esse sono aumentar. Sua vista, já embaçada, vai se fechando, quando, de repente, tudo se apaga. Sua cabeça tomba sobre o ombro esquerdo. Ela finalmente dormira, só que, desta vez, para sempre. Em suas face, um leve sorriso se mostrara. Talvez, um sorridente ao acaso, sem explicação. Ou, talvez, seja porque, em seis anos, ela não acordaria com aquelas terríveis náuseas que tanto lhe incomodavam.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
À beira do abismo
Era nítida minha vontade de saltar no precipício. Talvez não mais nítida porque não havia ninguém além de mim à borda da grande fenda geológica. Estava frio, um pavor me consumia. Meus poros todos abertos. Podia ser só frio, mas acho que era medo. Cada vez que encarava os intermináveis metros de queda livre, me lembrava de Nietsche. Será que o abismo também me fitava, ou seria um mero delírio dum velho filosofo que não sabia quem era Deus? Como se eu soubesse. Também me lembrava das aulas de física, com aquela fórmula que não vem ao caso sobre corpos que desabam sob a força da gravidade. Ao contemplar a longínqua descida, uma vertigem irremediável pressionava meu crânio. Uma tontura, um sentimento de que o chão se abriria, e eu cairia naquele buraco enorme. Pensava: e se eu pudesse voar? Com certeza me jogaria sem medo, só para saber o que sente um suicida. Mas, eu não sabia voar, e não viveria para relembrar meus sentimentos sobre a queda. Então apenas imaginava como seria se eu me jogasse dali. A sensação de liberdade, com o vento batendo sobre meu rosto, meus cabelos despenteados, o frio ainda maior pela sensação térmica de estar numa ventania gélida, a emoção de ver as encostas passando rapidamente, e aquela tal sensação de ver a vida toda passar em poucos segundos. Isso sim, seria maravilhoso. Será que me lembraria de tudo, até de quando estava no ventre de minha mãe? Ou apenas me lembraria de fatos recentes e impactantes? O esforço para imaginar tudo isso era grande já que não tinha coragem de fechar os olhos. E se alguém me empurrasse dali? Sim, eu sentia uma vontade de pular, mas não passava de vontade. O pular de fato era outra história. Continuava ali parado, olhando para o vazio, sentindo aquele arrepio na nuca, de quem sabe que a morte está mais próxima do que nunca. Quando me disseram que iríamos para um cânion quase não acreditei. Essa viagem já estava programada desde o ano passado. O diretor havia prometido, mas disse que não tínhamos verba suficiente para levar uma classe toda. Mas este ano deu certo, minha classe veio. E lá estava eu, à beira do precipício, numa mescla de euforia e temor. O vento parecia que me cortaria ao meio. Foi quando ouvi vozes. Eram os alunos, vindo correndo, na direção onde eu estava. Ao chegarem à beirada, todos começaram a olhar para baixo, quando alguém gritou: “Lá está ele, ele caiu mesmo!”. Olhei pra baixo e também vi, havia um corpo sim, na beira do rio. Não era muito nítido, mas dava pra ver que era um corpo. Logo alguns começaram a chorar. O professor chegou, e ao ver o corpo lá embaixo tentou ligar de seu celular, possivelmente para a policia, mas estava sem sinal. Saiu correndo, talvez em direção ao ônibus. Entre choros e gritos de desespero escutei meu nome: “Gabriel!”. Respondi: “Estou aqui”, mas não tive resposta. O Afonso, um dos alunos que estava na excursão se aproximou de mim. Perguntei a ele: “Você sabe quem caiu lá embaixo?”. Mas ele não me respondeu. Na verdade, nem estranhei, sempre fui ignorado por todo mundo. Tentei perguntar para outros alunos quem havia caído, mas ninguém me deu bola. Até entendo, estavam todos nervosos. Algum aluno havia caído no cânion. Talvez tenha se jogado, não sei. Que estivessem nervosos, agitados e preocupados, tudo bem. E até entendo que nunca fui muito popular, mas não precisavam ter ido embora e me deixado para traz. Será que não perceberam que eu ainda estava olhando o precipício? Será que não notaram que eu não estava no ônibus? Nem pra me chamarem. Eles tão fudidos. Quando eu conseguir voltar pra cidade vou fazer uma reclamação com o diretor. Caramba! Minha mãe vai ficar preocupada. Que nada, vai é ficar uma fera. Já está escurecendo, estou arrepiado. Só não sei se é de frio ou se é por causa de uma cruz improvisada que deixaram na beirada do precipício. Morro de medo dessas cruzes.
Conto originalmente publicado no livro "Uma Verdadeira Prosa - Contos e Minicontos"

