quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Aula de inglês


por Eder Ferreira


- Would you like to take an English lesson with me?

Disse-me, dias atrás, um professor de inglês, amigo meu. Mas, como sou PhD em embromation com pós-doutorado em enrolation, não entendi bulhufas...

É claro que algumas palavras a gente até arranha: dog, cat, music, movie, computer, etc. Até mesmo algumas frases inteiras: the book is on the table, how are you, e mais algumas.

Adquiri este (ridículo) vocabulário através de várias fontes, como músicas (Iron Maiden), filmes (Back to the future), séries (Lost) além de um jogo, onde quase todo o material disponível está em inglês, chamado RPG, sigla para Role Play Game (que quer dizer: jogo de interpretação de papéis. Achou que eu não saberia, não é...).

Mas, continuando, quando meu amigo professor de inglês me disse aquilo, fiquei com cara de brasileiro barrado na Espanha. Foi aí que ele resolveu cooperar.

- Eu perguntei: Não gostaria de fazer aulas de inglês comigo? – explicou ele.

- To sem money – respondí.

- Esquenta não. Te dou o curso de graça.

Como se diz “de graça, até injeção na testa” em inglês? Ah, esquece...

Comecei a fazer o tal curso. Resultado: me senti um Elfo-do-mar fora d´agua (não sabe o que é um Elfo-do-mar? Nem precisa. Isso é coisa de jogador de RPG...).

As aulas são muito chatas. Não entendo nada. Ele fica lá, tentando enfiar o verbo to be na minha cabeça. E aqueles exercícios de dicção. Parece um bando de bebezinhos contando as últimas do berçário.

Admiro muito quem sabe falar esse idioma. Mas, nunca me senti atraído. Principalmente depois que dois prédios desabaram em Nova York e um brasileiro foi morto por engano em Londres. O que é que eu vou cheirar nessas terras de gente doida? Sou mais o Rio de Janeiro. Pelo menos lá a gente entende quando um bandido diz “me passa a grana!” ou alguém grita “olha o mosquito da dengue!”.

Nesse exato momento, enquanto redijo essa crônica, estou no meio de uma aula de inglês. Epa, o professor-amigo ta olhando pra mim...

- Since you are not taking classes seriously, I will charge the course. I am not playing!* – disse-me ele, com tom de seriedade.

Claro, não entendi nada. Pelo menos o curso é de graça...


* Uma vez que você não está levando as aulas a sério, vou cobrar o curso. E não estou de brincadeira!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Além do tempo e da imaginação


por Eder Ferreira


Não sou Adão, muito menos minha senhora é Eva. Temos outros nomes, escolhidos por motivos que, porventura, não vem a calhar. Mas, mesmo não sendo o tal primeiro homem que habitou essa terra, tenho em mim a existência eterna, dos dias e anos que pesam sobre meu corpo e minha mente. Não como um ser vivo no sentido biológico da coisa, mas como algo simplesmente existente. Afinal, o que é vida? Vem-me esta dúvida agora. Seria a capacidade de se mover? Ou seria a de sentir? Sim, por que me movo e sinto coisas, ando, e além de andar vejo, cheiro e ouço. Vida seria então aquelas coisas de células, mitocôndrias, coacervados, proteínas, sopa primordial... é, seria no sentido teórico, mas o mundo é mais prático que isso. O que me faz refletir sobre tais questões é o fato de que sou eterno. Tenho algo em mim que existe desde que o universo nasceu. Tenho um átomo. Na verdade milhões. Ou trilhões. Não importa. O que realmente tenho certeza é de que ao menos um átomo em mim esteve entre os mais fantásticos momentos da história. No BigBang, com certeza. Foi um dos primeiros a nascer. Conviveu com a antimátéria, por míseros milésimos de segundo. Mas esteve lá, isso é que importa. Esteve no surgimento do Sol (só não sei como chegou à nossa estrela), da Terra, e no surgimento da vida. Possivelmente fazia parte de uma cadeia de aminoácidos que originaram as primeiras células. Estava no corpo de algum dinossauro quando estes se extinguiram. Viajou pelas eras geológicas. Participou dos corpos dos primeiros hominídeos, até culminar no famigerado Homo Sapiens. Esteve no Egito antigo, na Grécia antiga, em Roma. Juntou-se a outros átomos de reis, filósofos, artistas. Santos, santas, assassinos, genocidas. Esteve na revolução francesa, na revolução industrial, na revolução feminista. Participou de tantas histórias magníficas, até que chegou aqui, no Brasil. E veio parar no meu corpo. Não sei dizer direito como, talvez tenha chegado pela comida, ou pelo ar. O que importa é que tenho em meu corpo um pedaço da eternidade. Tenho em mim algo que viajou no tempo, cruzou os limites da existência, até aportar junto aos átomos que me compõem. Daqui, não sei para onde vai. Logo, possivelmente, sairá de alguma forma, e viajará tantos anos pela frente, de corpo em corpo, de nação em nação, de era em era. Leva apenas lembranças, fragmentos de vidas. Se existir aquilo que chamam de alma, quem sabe leve um pedaço dela também. E esse é apenas um dos muitos átomos que compõem meu corpo. Imagine os outros.

domingo, 28 de agosto de 2011

A árvore da vida



por Eder Ferreira

Cresce, aceleradamente, a ávida semente

Transforma-se, logo, em uma grande planta

Cheia de espinhos; mas que logo encanta

Aqueles que a árvore olham fixamente


Com seus frutos coloridos e suculentos

Folhagens verdes, vermelhas e amarelas

As fortes raízes, donde apegam-se a elas

As raízes d'outros troncos tão opulentos


Cresce, cresce... mais, mais, e muito mais...

A árvore, em sua ganância, nunca, jamais

Deixará que algo lhe interrompa em vão


Alcança, então, o tamanho máximo possível

E, como nunca poderá chegar ao inatingível

Desaba, tão rápido quanto cresceu, ao chão

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Thedy Corrêa, do Nenhum de nós, recebe homenagem em HQ


Não, ele não vai aparecer na superprodução da Marvel Studios. Thedy Corrêa, vocalista da banda Nenhum de Nós mostrará seu incrível corte de cabelo em Avengers 16.


Thedy e Mike Deodato, brasileiro que ilustra a série Avengers, ficaram amigos graças a internet, quando o músico descobriu que o desenhista ouvia as músicas de sua banda em uma rádio virtual. Se Deodato já havia mandado diversos presentes “quadrinísticos” para Thedy, o maior deles veio com o preview da próxima edição da hq.

O músico aparece em segundo plano, correndo enquanto o Demolidor destrói o que parece ser um robô gigante. Thedy usa um agasalho com a palavra ASTRONAUT. Referência a famosa música do grupo, Astronauta de Mármore, versão de Starman de David Bowie.


Um rosto na multidão

por Eder Ferreira


Tenho a face da vida

Tenho fases da morte

Em momentos ambíguos

Fragmentos de sorte


Tenho a face do riso

Tenho fases de agonia

Em momentos longínquos

Pedaços de monotonia


Tenho a face do mal

Tenho fases do bem

Em momentos antigos

Estilhaços do além


Tenho a face do medo

Tenho fases corajosas

Em momentos retidos

Frações perigosas


Tenho fases atadas

Tenho a face perdida

Tenho fases erradas

Tenho a face da vida

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Minicontos

por Eder Ferreira


CLÍNICA DE ESTÉTICA

O médico foi embora. Só ficou o monstro.


COMUNISTA MODERNO

Entre a espada, a foice, a cruz e o martelo, clamava por Cristo, mesmo sem crer em Deus, enquanto esperava pacientemente na fila do SUS.


SANTA TRAIÇÃO!!!

O super-homem-comum ficou verde de raiva ao ver sua mulher que não é nenhuma maravilha na cama com uma equipe de super-vilões-machos: o amante-de-fogo, o destruidor-de-lares e o sarado-mascarado, numa chuva de interjeições: OHHH!!!, UIII!!!, AHHHH!!!, VAAIIII!!!, UNHHH!!!, MAAAIS!!!!!!


PANDEM... ÔNIO

- Maldita gripe humana!

Exclamou o porco, ao ver seu leitãozinho doente.


O CRIME PERFEITO

Chegou em casa e pegou sua mulher com o amante. Não teve dúvidas. Suicidou-lhes.


ASSISTENTE DE MÁGICO

Era uma profissional tão dedicada que passou a levar trabalho para casa. Truque preferido: desaparecimento. O marido, compreensivo, entendeu.


FÉRTIL REBELDIA

Tinha dificuldade para seguir suas próprias regras. Por isso engravidou.


EPITÁFIO

Devia ter trabalhado mais, para não deixar tantas dividas para a viúva.


VIRA-VIRA

Cansada de homens, resolveu virar lésbica. Mas não deu muito certo. A primeira mulher que levou para o motel era um travesti cansado de ser passivo.


ESQUIZOFRENIA ANIMAL

A vaca foi pro brejo. Achava que era um porco.


Para ler mais minicontos do escritor Eder Ferreira acesse http://clubedeautores.com.br/books/search?what=eder%2C+minicontos&sort=created_at&commit=BUSCA

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Artista do céu


por Eder Ferreira


Risco o grande céu com meu dedo

Desenho belas e cintilantes estrelas

Sem culpa alguma, sem nenhum medo

Na esperança de, talvez, um dia tê-las


Apago os quasares, crio nebulosas

Pinto de vermelho os aglomerados

Desviando as distâncias numerosas

Dos tempos e espaços acelerados


A aquarela celeste, a azulada pintura

Plagiando e recriando as constelações

Do leste ao oeste, a galáctica moldura


Misturando as tintas nesse negro gel

Retas, sentimentos, curvas e emoções

Torno-me o astronômico artista do céu

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sexologia


por Eder Ferreira

No fluxo esgotante da perfeita simetria
Dos corpos semicarnais, paralisados
No tempo, na alcova, seres endeusados
A breve tempestade flui a calmaria

Mentes ligadas em sanguínea perfeição
Ardentes sonhos louvados, pecaminosos
Sentidos confusos, arrepios porosos
De Adão e Eva, à mera fornicação

O súbito, o púlpito, a mescla de dor
Com o prazer latente, alimentado
Da beleza honrosa, à morte da flor

Algemas; cárcere; símbolo retido
O chicote letal, o sentimento açoitado
No tronco ruge o amor pervertido

Versos íntimos, de Augusto dos Anjos

Ignorado pelos poetas da época, em especial os parnasianos, Augusto dos Anjos (1884-1914) é o único poeta a fazer parte do período conhecido como pré-modernismo. Uma das principais características de seus poemas era o uso de termos pouco usados pelos poetas, como as descobertas cientificas e temas como vermes, podridão e dilemas metafísicos. Não é a toa que ele foi chamado de “poeta do necrotério”. Logo abaixo, você conhecerá um pouco sobre o poema “Versos íntimos”, um dos mais famosos do autor.


Versos íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!



Sobre o poema:


- Augusto dos Anjos publicou um único livro em vida, intitulado “Eu”, em 1912, onde se encontra o poema Versos íntimos;

- A estrutura do poema segue a forma adotada pelos parnasianos e simbolistas. Trata-se de um soneto decassílabo em ABBA/ABBA/CCD/CCD. As metáforas quimera, pantera, fera e lama, estão ligadas a um ambiente naturalista, dada a opção de vocabulário do autor;

- Há, na 2ª estrofe do poema, uma clara referência à teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin;

- O poeta faz uso de uma linguagem que escapa do ambiente formal e invade um campo de exceções ao ambiente lírico, como no verso “Toma um fósforo. Acende teu cigarro!”;

- Os versos finais, em tom mais agressivo que o normal, antecipam o que se lerá no modernismo;

- Versos íntimos foi incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século", organizado por Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 61.


Para saber mais sobre o poeta pré-modernista Augusto dos Anjos, acesse http://pt.wikipedia.org/wiki/Augusto_dos_Anjos

sábado, 20 de agosto de 2011

A rosa assassina


por Eder Ferreira

Novamente, o cravo brigou com a rosa

E mais uma vez a espancou, covardemente

Da forma mais violenta e desonrosa

Destruiu suas pétalas... cravo indolente


Isso aconteceu por que o cravo a traiu

Com a linda tulipa, atrás duma moita

O relacionamento tão bonito ruiu

Quando a rosa descobriu afoita


Mas, ela tomou uma drástica atitude

E, à noite, no total silêncio e quietude

Com um espinho, o cravo ela matou


Agora, a rosa é a flor mais temida

Com sua face desolada e carcomida

Tudo graças a um amor que a magoou



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O imperfeito mundo das cópias


por Eder Ferreira

Não é sempre que a palavra plagio surge em algum meio de comunicação, mas quando aparece, já causa todo tipo de pânico. Lendo uma linhas digitais numa dessas comunidades virtuais, descobri que uma afamada banda de pop/rock/emocore, ou qualquer assim, estaria sendo acusada de plagiar outras bandas. Não vou entrar de cabeça nesse assunto, até porque só li a tal noticia de relance, sem mais detalhes, e nem vou dizer o nome da banda em questão, por motivos éticos.
A palavra plágio, por definição, deve ter algum sentido. Não vou sair atrás dum dicionário agora, mas deve ter. Porém, sem léxico algum, tal palavra nos remete a outra: cópia. Já na Grécia antiga, o filósofo Platão refletia muito sobre tal assunto. Dizia ele que existe um mundo perfeito e imutável, o das idéias, e que nosso mundo material não passa de uma mera cópia dessa perfeita idealização. Um exemplo: no mundo das idéias existiria um cavalo perfeito, sem defeitos, lindo, forte, saudável e tudo mais. Enquanto isso, em nosso mundo de carne, osso e metal, existem os cavalos que tanto conhecemos. Porém, esses equinos reais seriam apenas cópias do tal cavalo ideal. E, assim como uma folha fotocopiada (para evitar xerocada), a cópia não fica exatamente perfeita. Por isso um cavalo real pode ficar doente, não ser tão bonito como se imagina e, claro, pode morrer.
Isso se aplicaria a tudo e a todos. Só que o processo de cópias não para aí. Tudo o que existe no mundo real pode ser copiado. Um quadro, uma escultura, um texto (Deus me livre!) e até uma banda. Mas, quanto mais se copia algo, mais imperfeito fica.
Pois bem. Se a tal banda plagiou (ou copiou, como preferirem) outra, segundo Platão, a tendência é de que ela não conseguirá alcançar a perfeição que tanto busca. Se bem que, sinceramente, nunca gostei dessa banda copiadora. Sempre achei o som deles sem conteúdo. Talvez seja o sinal evidente da imperfeição defendida pelo discípulo de Sócrates (Platão, caso surja dúvidas).
Espero que esse exemplo não seja seguido, e cada um crie aquilo que lhe surgir na cabeça, e não copie de outros. “Nada se cria, tudo se copia” é um dos piores ditados já criados (ou copiados) até hoje.
Só mais uma coisa: esse texto que aqui chega ao fim não é uma cópia, mas, nem por isso é perfeito, já que no mundo das idéias existe um texto perfeito e blá, blá, blá...

As difíceis escolhas da vida

Quase não me lembro de quando o álcool entrou em minha vida. Passei muito tempo sem ele, mas quando o descobri, ai não teve mais jeito. Foi uma mudança radical. Tudo mudou. Me senti mais leve, mais solto. Meu humor melhorou muito. Todos os meus amigos notaram como fiquei mais feliz. Mas, logo percebi algo errado. A potência não era mais a mesma. O rendimento ficou seriamente comprometido. Minha mulher disse que eu precisava tomar uma decisão rápida. No inicio foi difícil. Mas, finalmente cedi. Hoje posso escolher. Não sou mais dependente do álcool. Desde que comprei meu Flex, posso optar por gasolina, ou misturar os dois combustíveis.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Uma última gota de amor


por Eder Ferreira

Meu sangue ficou preso
Numa gota singular
Que não cai
Que não vibra
Apenas fita a existência

Um pedaço de fluido
Que não flui mais
Em um espinho solitário
Que aponta ao infinito

Meu sangue é negro
Como a escuridão na noite
E vermelho rubro
Como a paixão que me corroi

Mas não tem brilho como a flor
Que ostenta o espinho
Por não mais fazer meu coração
Pulsar por um ser amado